06 setembro, 2010

Ensina-nos a rezar

Jesus nos convida a pedir com perseverança

A descoberta do amor de Deus está na base da vida cristã. A todos os homens e mulheres será anunciado de várias formas que Deus os ama imensamente, com amor eterno! O Sacramento do Batismo nos introduziu, como membros do Corpo de Cristo, na vida da Igreja, Mãe solícita que nos educa na fé, para sermos autênticos discípulos do Senhor. Trata-se de uma graça! No Batismo se estabelece um novo relacionamento com o Pai – “Eu te batizo em nome do Pai” – uma nova vida em Cristo – “e do Filho” – e a habitação do Espírito em que recebe o Sacramento – “e do Espírito Santo”. No Batismo, fomos sepultados com Cristo e com Ele ressuscitados, pela fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos (cf. Cl 2, 12-14).

Toda a vida se transforma, quando se acolhe a graça que vem do alto. Ao lado de um novo relacionamento com o próximo, na caridade, e da formação interior na prática das virtudes, e como fundamento de tais práticas, estabelece-se um relacionamento com Deus, chamado oração. Quem reza se salva, repete-se na Igreja no correr dos séculos!

Faz-se necessário encontrar na vida a arte da oração. “A oração não se pode dar por suposta; é necessário aprender a rezar, voltando sempre de novo a conhecer esta arte dos próprios lábios do divino Mestre, como os primeiros discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar» (Lc 11,1-13). Na oração, desenrola-se aquele diálogo com Jesus que faz de nós seus amigos íntimos: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15,4). Esta reciprocidade constitui precisamente a substância, a alma da vida cristã. Obra do Espírito Santo em nós, a oração abre-nos, por Cristo e em Cristo, à contemplação do rosto do Pai. Aprender esta lógica trinitária da oração cristã, vivendo-a plenamente sobretudo na liturgia, meta e fonte da vida eclesial, mas também na experiência pessoal, é o segredo dum cristianismo verdadeiramente vital, sem motivos para temer o futuro porque volta continuamente às fontes e aí se regenera” (Novo Millenio Ineunte, n. 32).

As nossas comunidades devem tornar-se autênticas escolas de oração, onde o encontro com Cristo não se exprima apenas em pedidos de ajuda, mas também em ação de graças, louvor, adoração, contemplação, escuta, afetos de alma, até se chegar a um coração verdadeiramente apaixonado. Uma oração intensa, mas sem afastar do compromisso na história: ao abrir o coração ao amor de Deus, ela o abre também ao amor dos irmãos, tornando-nos capazes de construir a história segundo o desígnio de Deus (ibidem, n. 33).

É bom esclarecer que na Igreja se usam, um pelo outro, os verbos orar e rezar, em maiores complicações. Abraão intercede por cidades marcadas pela iniquidade (cf. Gn 18, 20-32), pechinchando com Deus, na súplica por um desconto no número de justos a serem ali encontrados. As situações mais desesperadoras podem ser apresentadas diante de Deus Pai.

Trata-se de desenvolver a sensibilidade que nos permita abrir o coração diante do Altíssimo, derramando em Suas entranhas de misericórdia tudo o que vivemos. O Senhor responde a cada vez que O invocamos (cf. Sl 137). E quando não nos atende é porque sabe o que é melhor para nós, ou porque misteriosamente se envolve a liberdade das pessoas, que podem acolher ou rejeitar a graça de Deus. O início da oração será sempre a abertura à Sua vontade.

Jesus nos ensinou a orar dando-nos de presente o “Pai-Nosso”. Não há melhor nem mais completa oração do que esta. Todos os outros pedidos e súplicas, sendo parecidos com as que compõem a oração do Senhor, serão autênticos. Nos sete pedidos do Pai-Nosso estão contidos os únicos e verdadeiros bens necessários. Os três primeiros pedidos visam a glória de Deus. Reconhecemos a Santidade do nome de Deus, pedimos e acolhemos o Seu Reino e Sua Vontade. Nos quatro pedidos que se seguem, pedimos o perdão dos pecados e nos comprometemos a perdoar como somos perdoados. Dele esperamos a vitória contra a tentação, porque a causa de nossos pecados são as tentações. Não é pecado ser tentado, mas consentir nas tentações, pelo que pedimos para não cair! Tudo isso porque Deus é o Pai que dá a cada dia o alimento desta terra e o Pão da vida, a Eucaristia. Pedimos o pão para hoje com a confiança de que amanhã voltaremos a pedir e nosso Pai no-lo dará de novo!
Jesus nos convida para pedir com perseverança, sem nunca desanimar. Deus não nos dará sempre o que Lhe pedimos ou do jeito que esperamos receber, pois, muitas vezes, não sabemos o que nos convém. Mas o Pai nos dará sempre o Espírito Santo. São Paulo diz que o Espírito Santo Paráclito vem em auxílio de nossa fraqueza, pois não sabemos rezar. Repetindo com perseverança o Pai-Nosso chegaremos ao “tom” da oração que nos harmoniza com o plano de Deus! O pedido perseverante deixará de ser egoísta e se transformará em oração, que nos eleva e nos aproxima de Deus.

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

25 agosto, 2010

Como explicar o sofrimento?

Sobre o sofrimento, o que ocorre é que a mentalidade do século XXI é muito influenciada por uma visão de "gozo da vida". Nosso Senhor, que não tinha nenhum pecado, sofreu por todos nós. Santa Terezinha do Menino Jesus, quando descobriu sua doença (tuberculose), ficou muito feliz por poder sofrer em união à Cristo.
Ensina S. Paulo: "Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo" (Colossenses 1, 24).

Nosso Senhor também disse: "quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me".

Ora, a vida do católico (e de toda a criatura), nesta terra, é um "vale de lágrimas".

O sofrimento é um sinal de benção de Deus, que ama seus filhos e os ajuda e chegarem até Ele. Quando você conhecer alguém que não tenha sofrimento, desconfie. Ele pode estar recebendo nessa terra o pagamento pelo que já fez de bom, pois não receberá na eternidade... O homem justo expia os seus pecados e os dos outros, como Cristo expiou por nós na Redenção.

Existe um livro muito interessante, chamado "carta do Além", que não tem nada de espírita. Trata-se de um sonho de uma freira. Nesse sonho, essa freira recebe uma carta de uma antiga amiga, que havia sido condenada ao inferno. Depois de ler a carta, ela transcreve em um papel. Nesse documento, a amiga diz, claramente, que Deus já tinha dado à ela, durante a sua vida, tudo o que lhe era de "direito", por cada ato bom que, em algum momento de sua vida, ela havia feito.

Voltando ao sofrimento, hoje é pouco conhecido o motivo que leva o Padre, durante o ofertório, a acrescentar uma gota de água ao vinho que será transformado no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa gota de água é o nosso sofrimento, de cada homem, que é unido ao sofrimento de Cristo, segundo nos ensina S. Paulo, como já visto:"Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo" (Colossenses 1, 24).

Quanto mais uma pessoa pode sofrer pelos outros (e por si), tanto mais ela se aproxima de Deus por seus méritos e pela assistência de que necessita.

Pode-se observar que, normalmente, quanto mais sofrida é a pessoa, tanto mais ela tem Fé em Deus. O sofrimento aproxima o homem de seu criador, assim como uma criança procura seu pai quando não consegue resolver por si mesma algum problema.

Portanto, não devemos nos assustar com pessoas que sofrem mais do que outras. Elas foram chamadas a uma vocação específica e muito grande. Elas compram graças para os outros e intercedem, com seus sofrimentos, junto ao trono de Deus.


Temos o caso de Jó, na Sagrada Escritura.

Como Jó era fiel, o demônio dizia que a fidelidade dele advinha do fato de que ele tinha riquezas. Deus, então, permitiu que o demônio retirasse a riqueza de seu servo Jó. E assim foi. Jó ficou pobre e, na sua pobreza, bendizia ao Senhor seu Deus: "Deus me deu, Deus me tirou, louvado seja o santo nome de Deus". O demônio, ainda não satisfeito, afirmou que ele era fiel apenas por que tinha uma família muito boa e com muitos filhos. Novamente, Deus permitiu que o demônio atentasse contra a família de Jó. Morreram os seus filhos, ficou apenas a sua mulher. Esta, para provocar a Jó, dizia que ele deveria maldizer a Deus. Jó, porém, repetia: "Deus me deu, Deus me tirou, louvado seja o santo nome de Deus!". O demônio continuava insatisfeito e lançou sua última carta: retirou a saúde do grande homem que os séculos cantam e glorificam em sua paciência. Jó, conta a Sagrada Escritura, ficou com a pior doença da época: a lepra. No monte de sua desgraça, Jó repetia: "Deus me deu, Deus me tirou, louvado seja o santo nome de Deus!". Depois de tantas provas de fidelidade, Deus restituiu a saúde, a família e o dinheiro a Jó.

Esse é o amor filial, o amor de reverência, o amor de adoração que se deve à Deus. Jó é um dos maiores homens do Antigo Testamento! Ele foi grande por quê? Porque soube amar a Deus no seu sofrimento. Soube se entregar por inteiro ao seu criador, de quem recebeu tudo sem nenhum mérito. Agora, ele retribuía com um pouco o muito que recebera: a sua existência.



Deus nos convida à tomarmos a nossa "Cruz" e a "seguí-lo".